
Às vezes as crianças escolhem lugares, digamos, difíceis para fazer cocô. A Ciça já fez alguns assim. Lembro de um dia em que me brindou com um cocô no metrô Sumaré, que não tem nada por perto, nem banco para sentar e, como ela já era maiorzinha, troquei-a em pé, cheia de malabarismos. Mas isso não foi nada perto do temido
cocô no avião.
Ah, cocô no avião pode ser fichinha para algumas mães, mas não para mim, que morro de medo de banheiro de avião (prontofalei!). Sou claustrofóbica e banheiros apertados são a minha maior causa de suores e taquicardia. Quando voo sozinha, aviso bem alto que vou ao banheiro, para que meu vizinho de cadeira se lembre disso caso eu não apareça na próxima meia hora.
Por isso se alguém de vocês, em uma viagem de avião, já ouviu uma louca alardear aos quatro cantos que vai ao banheiro, essa sou eu (oi?). Já pedi para a aeromoça abrir a porta em cinco minutos caso eu não desse sinal de vida e coisas assim. É claro que em voos curtos eu não vou ao banheiro. Mas, com filho, é diferente...
Vou contar os relatos de duas amigas, que passaram por agruras nesta semana. Como não foi comigo, foi impossível não rir, mas elas têm toda a minha compreensão:
Uma é lou, quer dizer, claustrofóbica igual a mim. Ela estava sozinha, com o filho de 11 meses, numa boa. O cara ao lado tinha boa vontade com bebês e estava todo amigo do bebê e da mãe, ou seja, tudo correndo muitíssimo bem. Eis que, no meio do lanche, a minha amiga sente a catinga e, mesmo morrendo de medo do banheiro, resolve que tem de encará-lo com o seu pequenino. Tudo, diz ela, para não estragar a amizade que nascera entre seu bebê e o vizinho de cadeira. Ela me confessou que, se estivesse sem vizinho, esperaria o avião pousar para trocá-lo, mas, neste caso, não poderia obrigar o pobre vizinho a sentir o budum de seu filhote.
Seguem mãe claustrofóbica e bebê para o banheiro. Mãe claustro (vou falar assim, para facilitar) implora à aeromoça para trocá-lo de porta aberta (encostada). Aeromoça diz que os passageiros vão reclamar. Mãe claustro diz que vai ser rápido, que não vai sair o cheiro, só falta chorar. Aeromoça faz vistas grossas. Só que um bebê de 11 meses já é ativo o suficiente para não ficar deitado ao ser trocado. E, contagiado pelo temor da mãe, se levantou e a agarrou, com medo daquele lugar estranho.
No que ele levanta, o cocô se espalha pela cabine. E não ficou mais parado, começou a andar e querer colo. Ele. Todo cocozado. Cocô escorre pelas pernas do bebê, melando trocador, pia, espelho, teto e blusa da mãe. Pânico. O processo de limpeza demora horas, pois agora envolvia enxágue e troca de roupas. Aeromoça passa mil vezes pela porta fazendo cara feira. O budum se espalha pelo avião. A mãe resolve que não vai mais trocá-lo, que só quer sentar e chorar, mas lembra do vizinho de cadeira amigo e resolve que é melhor terminar o trabalho sujo (literalmente).
Meia hora depois, sai uma mãe suada e descabelada do banheiro, com um bebê fofinho. Ela volta, irreconhecível, tentando escapar dos possíveis olhares de reprovação. Senta na cadeira e decide que nunca mais voa com o bebê na hora do cocô dele (pela manhã). E reza para que esta hora não mude nunca. Mesmo assim, me confessou ontem que adoraria me visitar em Brasília, mas antes precisa superar o medo de voltar a voar sozinha com ele.
A outra me contou pessoalmente e depois eu pedi o relato por e-mail. O filho dela é o Gabriel, de 2 anos e 5 meses, que tem o mesmo problema da Ciça (prisão de ventre pós-desfralde).
"Foi durante o jantar, com um homem ao meu lado, que adora crianças. Ele estava todo encantado com o Gabo. Bem, nós estávamos comendo, quando o Gabo começou a cocozar na fralda que eu havia colocado logo que entrei no avião, pois percebi que ia vir um cocô e que o acidente seria menor se fosse na fralda do que na cueca.
Como ele fica muito tempo sem fazer cocô, quando chega a hora, faz uma força monstra, fica vermelho, suando, pede para descer da onde estiver para se posicionar no chão e não quer ninguem ao lado. Então, tudo isso aconteceu e ficamos nós - eu e o meu companheiro ao lado - comendo e fingindo que não tinha um menininho escondido no nosso cantinho (perto da janela, na frente das cadeiras, na primeira fila) fazendo força e soltando aquele cheirão (em geral, cheiro de cocô guardado há alguns dias...)!
Finalizado o preocesso cocozal, fomos para o banheiro, que a aeromoça havia preparado com o trocador. No meio da limpeza, começou a turbulência (óbvio que isso ia acontecer) e fiquei morrendo de medo de escutar o "piiii" do "apertem os cintos" e eu ter que sair com ele lá de dentro sujo e sem roupa. E eu correndo para terminar de vesti-lo, com medo que o avião desse aquela "queda" típica de grandes turbulências e a gente fosse parar grudado no teto... Olhava pro espelho, com medo de batermos nele. Afe! E tudo o que ele queria era apertar aquela descarga engraçada da privada.
Mas foi so um chacoalhinho e deu tempo de terminar de limpar e vesti-lo e voltar para nosso lugar. De toda a história, só restou o cheirinho ruim do cocô vindo lá do banheiro, empesteando o corredor e aquela área da frente onde ficam sentadinhas as aeromoças, perto da comida, sabe?"
Depois destes relatos, vi que o meu nem foi dos piores, pois eu estava acompanhada de Bernardo e isso facilita bastante. Mas, para quem vai sozinha com o filho, a coisa complica um pouco mais, não tem jeito.
Comparando as duas histórias, notam-se muitas semelhanças. Do que eu concluo que o vizinho da cadeira é, na verdade, o superego das mães. Se não fossem eles, coitados dos outros passageiros, que seriam obrigados a sentir o budum o voo inteiro. Por isso, você que é mãe, quando estiver viajando sozinha com o seu filho, trate de fazer logo amizade com o vizinho do lado. A compreensão de um homem nestas horas costuma ser maior que a de muitas mulheres. Pelo menos algumas aeromoças. Bom feriado para todos (com ou sem cocô no avião)!