Comcei a pensar no segundo parto antes mesmo de engravidar da Clarice. Não sei exatamente em que momento que caiu a ficha que a antítese prefeita daquele parto normal cheio de intervenções (ocitocina, anestesia, episiotomia e fórceps) não era uma cesárea, mas um parto natural, ou seja, um parto normal sem intervenções.

Prometi para mim mesma que, numa segunda gravidez, seria diferente. Quando soube que estava grávida, passei a pensar nisso com mais afinco. E comecei a me informar, a ler sobre o assunto, a pesquisar e a devorar tudo que fosse relativo a parto natural e humanizado.
Em vez de ler os livros clássicos como "O que esperar quando você está esperando" (que já tinha lido na primeira e que é completamente mainstream), procurei outras leituras, livros, textos, depoimentos e vídeos que mostrassem o outro lado, o lado do parir naturalmente, com os hormônios do próprio corpo, no tempo da mulher (e do bebê), encarando a dor não como sofrimento, mas como um passo a mais para estar perto do seu filho. Vendo as contrações como abraços do útero no bebê, como algo que vai ajudá-lo a sair de lá, e não como algo que veio para nos fazer sofrer. Li sobre formas alternativas de analgesia, como água quente, massagens e, principalmente, apoio.
Por isso, achei melhor contratar uma doula, alguém experiente que me ajudasse a superar meus medos, minhas barreiras internas, que começavam com a tal da cesárea prévia. Logo vi que isso custaria caro e resolvi economizar nos outros itens para ter um parto mais respeitoso, que não fosse comandado por um médico, mas protagonizado por mim.
Feita a introdução, que já foi esmiuçada em outros posts, vamos ao início do trabalho de parto.
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Com 37 semanas, três dias antes do parto, comecei a sentir cólicas. Mas, como sabia que os pródromos poderiam durar duas semanas, fiquei tranquila e não comentei com ninguém, nem com a médica nem com a doula. Só com o Bernardo, pois precisava me queixar um pouquinho, né?
Ele perguntou se eu queria tomar um analgésico e eu disse que não. Eu queria sentir tudo, cada pedacinho desta maravilhosa experiência. Só que eu não sabia que estava tão próxima assim do parto. Como ela estava com baixo peso, eu queria que ela ficasse mais tempo lá dentro. Se fosse para passar duas semanas com cólica, eu teria passado. Estava decidida.
Tínhamos ido a um jantar com amigos na noite de quinta e, por volta das 5h da manhã de sexta, dia 23 de julho, acordei molhada. Eu estava com 38 semanas e 1 dia. Na hora, tive
certeza de que não era xixi, mas, mesmo assim, coloquei a mão para checar: a água jorrava. Cutuquei Bernardo e disse: "Bê, estourou a bolsa". Ele deu um pulo da cama e assim começou o nosso dia. Ele achava que eu deveria voltar a dormir. Eu achava que tinha que preparar a sacola da maternidade, já que não tinha deixado a minha pronta (só a da Clarice), numa tentativa semi-consciente de segurar o bebê.Me levantei calmamente, coloquei um absorvente, e comecei a separar as coisas para levar para a maternidade - que ainda não sabia qual seria, pois, como a Clarice havia passado a maior parte da gravidez sentada (pélvica) e havia virado de cabeça para baixo (cefálica) havia uma semana, eu tinha começado a cogitar até um parto domiciliar, tinha conversado com um parteira no sábado, no encontro do Ishtar, visitado a segunda parteira na quinta e tentaria falar com uma terceira (a última, das indicadas em Brasília) na própria sexta, dia em que a bolsa estourou.
Como já contei em outro post, as parteiras que eu visitei não toparam acompanhar o parto por várias razões e eu tinha trocado de obstetra na 35a. semana. Estava com uma que me passava confiança e uma doula ótima, nada podia dar errado. Enquanto arrumava as coisas, a água jorrava de mim e deixei parte da cama e o chão completamente molhados, mesmo usando absorvente.
Depois, liguei o computador para mandar um email para a doula e a doula substituta (a minha doula estava com viagem marcada para o dia seguinte e eu sabia que o trabalho de parto poderia durar muito) e a encontrei on-line. Ia comunicar por email porque era muito cedo e eu não ia ligar para elas, já que sabia que o negócio poderia demorar a engrenar. Falei para ela: "A bolsa estourou". Ela disse que foi a primeira vez que recebeu este comunicado on-line.
Ao conversar com ela no Gtalk, percebi que a água ia parando de escorrer. "É que a Clarice encaixou", ela disse. E veio pra minha casa trazendo uma garrafa térmica com chá de canela, que, dizem, ajuda a acelerar o TP.
Eu já tinha uma consulta com a obstetra às 9h e fui pra lá, feliz da vida. Clarice tinha virado de cabeça para baixo (cefálica) havia uma semana e estava do lado esquerdo, melhor posição impossível. E estava encaixada. Ela fez um toque e disse que o colo ainda não estava totalmente apagado e me falou que ia esperar 12h para eu entrar em TP (com contrações). Eu fiquei meio tensa com este prazo, mas confiante. Saí de lá e voltei pra casa, onde fiz exercícios com a bola suíça e tentei me acalmar. Cecília estava um pouco tensa, sentiu a nossa tensão, e esta foi a parte mais difícil de administrar. Pedi que a empregada a levasse ao parque e marquei para a tarde uma sessão de acupuntura para acelerar o TP.
Pouco depois de voltarmos pra casa, meu tampão saiu e comecei a sentir as contrações, ainda desritmadas, mas algumas já fortes. Resolvi arrumar o quarto da Clarice, faltava ajeitar os últimos detalhes e colocar um adesivo na parede. Bernardo e Cecília vieram ajudar e ficamos pelo menos uma hora nisso. Foi gostoso estar com os dois nesta hora. Por volta do meio-dia, meu primo me liga dizendo que estava em Brasília a trabalho e voltaria no mesmo dia, que queria nos ver. Convidei-o para almoçar conosco e combinei com Bernardo que não falaríamos nada, para não criar expectativa na família. Já bastavam as nossas expectativas. Almoçamos e conversamos e ele foi embora para o aeroporto sem perceber nada.
Seguimos para a acupuntura e, mesmo antes de chegar lá, as contrações começaram a ficar regulares: de 10 em 10 minutos. Fiz uma sessão que durou uma hora e meia, com agulhas e eletrodos, e as contrações foram se tornando mais doloridas, mais prolongadas (cada uma durava uns 40, 50 segundos) e com intervalo reduzido: de 8 em 8 minutos.
Saí da acupuntura mais feliz e confiante que nunca, pois agora era certo que o TP tinha engrenado. A obstetra tinha ligado e falado que seria bom nós passarmos no Posto de Saúde onde ela atendia à tarde, para checar os batimentos cardíacos do bebê. Como era perto de casa, passamos lá. Ela ouviu o coração, tirou minha pressão e estava tudo bem, mas, não sei o que deu nela, alguma intuição (ou pela localização do coração na barriga), ela resolveu fazer outro toque. Topei. Aí veio a decepção: em vez de sentir a cabeça, ela sentiu o pé do bebê no canal de parto.
Eu não acreditei, não podia ser, ela havia virado havia uma semana, estava super bem posicionada. Comecei a chorar copiosamente no posto de saúde. Ela e outra médica vieram me acalmar, mas eu não me conformava. Sabia que no Brasil são raríssimos os profissionais que topam fazer um parto de bebê pélvico e a minha médica já tinha me dito que ela não faria. Mesmo a minha bebê sendo pequena, eu também não sei se eu toparia correr o risco.
Pedi a ela um tempo, pois achava que Clarice ainda podia desvirar. E queria ter certeza disso, fazer um ultrassom. Eu já tinha um ultrassom marcado para este dia e faltei, pois estava em TP. Cheguei a ir à clínica e pedir encaixe em outro horário, mas a médica ultrassonografista não aceitou. Segui para o pronto socorro do hospital onde Clarice nasceu e consegui fazer um ultrassom lá (depois de mais de uma hora de espera, com contrações já fortes, de 6 em 6 minutos). Aí a tela mostrou que ela estava córmica, ou seja, transversa, deitada e com o pé no canal de parto. Esta posição consegue ser pior que sentada para um parto normal.
Liguei para a minha médica e contei-lhe do ultrassom. Disse-lhe que não tinha pressa nenhuma em fazer a cesárea e que ela me dissesse qual hospital tinha o melhor anestesista, pois, já que ia cair na faca, precisava estar cercada de bons profissionais. Ela ligou para os dois hospitais possíveis e descobriu que às 19h começava o plantão do melhor anestesista com quem ela já havia trabalhado. Já eram umas 18h e ela me disse que eu poderia me internar.
Como eu não tinha pressa e o hospital era perto de casa, falei que queria passar em casa antes. A esta altura, as contrações já me obrigavam a abaixar a cada 5 minutos e ficar de cócoras estivesse eu onde estivesse. Chegamos em casa, pegamos as coisas, falamos com a Ciça que Clarice ia nascer naquele dia (até então, não tínhamos dito nada, pois não sabíamos se seria naquele dia mesmo). Ela ficou feliz, pois, no dia anterior, tinha dito que não queria mais a Clarice na barriga, que queria a Clarice "nascida". Me deu um beijo e me desejou boa sorte. Saí de casa mais tranquila, apesar de saber que passaria por uma cesárea.
A partir disso, não sei como cheguei ao hospital nem como aguentei os longos minutos para a internação se confirmar, pois a burocracia era enorme. Chegamos ao hospital junto com a médica e logo em seguida chegou a doula. Eu já estava com dores fortíssimas, que vinham e iam (e, nos poucos minutos que estava sem dor, eu estava ótima). Eu estava feliz em sentir todas as contrações, sabendo que, independentemente da posição da Clarice, elas a ajudariam a nascer. E isso me fazia suportar a dor. Eu gritava na sala, nem me importava com os olhares alheios.
A médica, que também é acupunturista, pressionava um ponto no meu cóccix que aliviava em 50% a dor das contrações. Ela e a doula foram me ajudando a segurar a onda enquanto Bernardo cuidava dos papeis da internação. Depois de ter feito cocô o dia inteiro (faz parte do TP), eu falei para a médica que agora estava com uma vontade incontrolável de fazer cocô. Aí ela ficou alarmada, pois sabia, pela minha cara e pelas fortes e longas contrações, que quase não tinham mais intervalo entre si, que eu estava entrando no expulsivo.
Não sei como, agilizaram tudo na mesma hora e, por minutos, eu não pari naquela sala. Seguimos voando para o centro cirúrgico, trocamos de roupa e logo eu estava deitada na maca. Deitada é realmente a pior posição do mundo para uma grávida com contrações. Ali, naquela maca, enquanto o anestesista se preparava, tive as piores dores. E dava uma certa tristeza estar tão perto do expulsivo e não poder parir como eu queria. O médico foi rápido, enfiou a agulha nas minhas costas e na mesma hora eu não senti mais nada. Não nego que foi um alívio, pois já não havia intervalo entre as contrações, mal dava tempo de respirar.
Bernardo estava do meu lado esquerdo e a doula, do lado direito, me acalmando e narrando as manobras que a médica fazia para retirar a minha Clarice espoleta da barriga. Sim, mesmo em cesáreas são necessárias manobras para se retirar um bebê pélvico (a esta altura, ela estava sentada de novo). Eram 19:45 (me disseram depois), quando Clarice nasceu. Primeiro saiu a bundinha, depois as pernas, tronco, braços e por último a cabeça, enroladinha no cordão. Logo ela chorou e veio para mim. Era pequena e perfeitinha, uma lindeza. Todos na sala que conheciam a Ciça afirmaram em coro: é a cara da irmã. Os que não conheciam diziam parecer com o pai.
Ela foi levada ao berçário e Bernardo foi junto. Pedi à médica que não deixassem aplicar o colírio, já que ela tinha nascido de cesárea e a indicação é para partos vaginais (pois existe risco de contágio caso a mãe tenha gonorreia). Me disseram que, como a minha bolsa estava rota havia muito tempo, tinham que fazer. Eu, deitada e senso costurada, não pude fazer muito, mas pedi que ao menos ela viesse mamar quando acabassem as intervenções. Bernardo ia e vinha do berçário, onde fazia pequenos filminhos da nossa menina e vinha correndo me mostrar.
Acabada a cirurgia, seguimos para a recuperação. Fui acompanhada de Bernardo, da médica e da doula. Como logo chegou outra mulher, pediram que ele saísse. Mas a médica e a doula ficaram comigo e trouxeram Clarice para mamar, ainda sujinha de vérnix, enrolada numa mantinha do hospital. Ela veio e mamou no meu peito direito, o que eu tive mais dificuldade de amamentar a Ciça, pois ele é meio plano. Mas Clarice não se melindrou, chegou e mamou como se não houvesse amanhã. Foi emocionante, todas nós vibramos, pois sabíamos o quanto isso representava para mim. A médica tirou fotos com o iPhone como se fosse a primeira vez que ela via um bebê mamando.
Após mamar o quanto quis, ela foi levada de volta ao berçário, enquanto o efeito da anestesia passava. Lá deram banho e a vestiram. Eu pedi para vê-la de novo, mas disseram que ela estava dormindo. Na hora de subir para o quarto, as enfermeiras a trouxeram e colocaram num bercinho. Não sem antes pedirem para tirar fotos com ela. Todo mundo ficou babando por ela e ela lá, dormindo. Um segurança veio nos acompanhar e subimos para o quarto, onde Bernardo nos esperava para a nossa primeira noite em família. Nesta noite, ninguém dormiu, pois Clarice mamava praticamente de hora em hora e eu estava tão, mas tão feliz que não tinha sono que me nocauteasse.
Apesar da cesárea, ela havia nascido super bem, com uma vitalidade incrível, Apgar 9 e 10, acertou a pega de cara e mexia a cabeça tão bem enquanto mamava que parecia um bebê maior. E, não sei se para me acalmar ou não, a doula me disse algumas vezes, durante a recuperação: "A Clarice nasceu de parto normal, você é que passou por uma cesárea", querendo dizer que eu cheguei até o fim do meu trabalho de parto e que ela só não passou pelo canal de parto, mas passou por todo o processo de parto natural, sem analgesia e sem ocitocina artificial. Depois a médica me disse que aquela dor que eu estava sentindo é a da fase final mesmo, que não ficaria mais forte, eu já estava no expulsivo.
Eu sei que, se fosse em outro país, Clarice nasceria de parto normal. Como eu já sabia que os médicos que consultei (mesmo os que assistem parto domicilar) não concordariam em acompanhar um parto de bebê pélvico, fiquei tranquila, sei que fiz o melhor que pude, até o final. E agradeço demais por ter sentido tudo, desde o início, por ter sentido o meu corpo trabalhando para trazê-la ao mundo, por termos trabalhado juntas, ainda que ela tenha virado.
P.S. Eu desconfio que ela tenha virado durante a sessão de acupuntura. Depois de ativar uns pontos que fizeram aumentar na hora as contrações, o acupunturista me virou do lado direito e colocou umas agulhas com eletrodos na bacia, segundo ele para relaxar a bacia. Não sei como, mas consegui dormir entre uma contração e outra e tenho certeza de que ela virou nesta hora, pois, mesmo sendo pequena, acho que eu sentiria ela virando se estivesse acordada. Acho que a minha bacia relaxou tanto (e eu também, tanto que dormi) que ela desencaixou e resolveu brincar mais um pouquinho lá dentro, só pode. Então eu acho que acupuntura é muito bom, mas deve-se evitar mexer na bacia.
Relato incrível! Um relato de perseverança e amor! parabéns por seguir seus princípios até o fim. E parabéns pela linda Clarice, que é tão bela quanto a irmã. E, francamente, ela estava com baixo peso? E aquele bochechão não conta? hihi Boas mamadas para vcs duas, viu?