Semana que vem a Ciça faz quatro anos e eu também farei aniversário: quatro anos de maternidade. E esta data é bem marcante para mim, pois sinto que ultrapassei um primeiro ciclo e estou começando outro, de mãe de duas (delícia!), de mãe mais informada e também mais intuitiva, porque uma coisa não elimina a outra, de mãe ainda mais consciente das minhas escolhas.Tenho refletido mais do que nunca sobre a maternidade e sobre o que quero para as minhas meninas.
No meio deste turbilhão de reflexões (que não termina nunca), li o post da Camila sobre o que ela chama de bullying materno, quando umas mães atacam as outras por suas escolhas. Concordo que há mães que julgam as outras e se sentem superiores nos seus pontos de vista - e estas geralmente são identificadas como as radicais.
Mas, diferentemente do que muitas das que comentaram lá dizem, acho que esta categoria de mães existe dos dois lados, o das chamadas radicais e o das chamadas moderadas (basta ver alguns comentários lá, bem preconceituosos com mães que adotam a livre demanda ou usam fraldas de pano). Porque, verdade seja dita, há radicais dos dois lados, mas só algumas levam a fama. E a diferença é a tônica da maternidade, não a exceção, como já escrevi quando fui VIP lá no Astronauta.
E o que ela chama de imposições - tem que isso, tem que aquilo -, ao meu ver, vem mais da parte das chamadas moderadas do que das radicais. Não vejo ninguém impondo a livre demanda, por exemplo, mas vejo gente que impõe o leite artificial como sendo a fórmula mágica para se fazer um bebê dormir, engordar, ser feliz ou sei lá o que mais.
Então acho que a gente deve relativizar tudo isso, porque tá cheio de mães sugerindo coisas, é verdade, mas são poucas as que impõem seus pontos de vista como os únicos corretos. E mesmo os pontos de vistas devem ser relativizados, porque parte vem do achismo ou da tradição familiar de cada um, enquanto outra parte vem embasada por fontes mais confiáveis, como OMS e outras instituições idôneas.
Quando exponho o meu ponto de vista sobre a criação das minhas filhas, deixo claro que é o que penso ser melhor para ELAS e para a nossa família. O que EU penso (e, quando me baseio em fontes outras, faço questão de citá-las). Eu não tenho nada a ver com a família alheia e seria muito prepotente de minha parte tentar impôr a minha visão de mundo para outrem.
Minhas filhas convivem com filhos de mães que pensam de forma diametralmente oposta à minha (asim como eu tenho amigas bem diferentes) e não vejo problema nenhum nisso, ao contrário, acho que todos temos a ganhar.
Mas, ao mesmo tempo, não posso me violentar, negligenciar meus valores e princípios porque a maioria das mães faz o contrário. Um exemplo: sempre fui preocupada com a formação dos hábitos alimentares das minhas filhas. E muita gente me pergunta como eu consigo não dar pirulito ou coca-cola ou chiclete ou bala ou batata frita para a Ciça, se ela vê todos em volta comendo. É simples: da mesma forma que não lhe dou vinho e cerveja ou qualquer coisa que não seja adequada para crianças.
No caso das guloseimas, apenas lhe digo que nós (nossa família) não comemos estas coisas. E ela aceita, numa boa. Já me pediu, eu recusei. Não tenho problema em dizer não. Talvez mais para frente eu afrouxe esta regra (que é nossa, não é universal) e permita que ela coma ou beba algumas destas coisas, mas agora ainda acho cedo, acho que ela está numa fase de consolidação dos bons hábitos alimentares e não tem por que fazer algo só porque "todo mundo faz".
Quanto a julgar ou ser julgada, acho que isso também é bem relativo. Toda semana recebo comentários anônimos me julgando, me chamando de radical, de chata etc. No entanto, estou só compartilhando a minha experiência como mãe, que é singular (como todas as outras) e reflete a minha forma de pensar. Não quero que todas concordem comigo, mas fico feliz quando alguém diz que o post ou a conduta a levou a refletir.
Assim como, quando leio um blog, eu não acho que eu precise concordar com tudo o que a pessoa escreve, mas nem por isso vou deixar de lê-lo; compartilhar esta deliciosa experiência da maternidade, ler o que escrevem a respeito, tirar dúvidas, ver que as outras pessoas também têm dificuldades e passam pelos mesmos percalços já é suficiente para mim. Escrevo porque me faz bem, porque escrevendo sistematizo melhor as ideias e reflito sobre o tipo de mãe que eu sou e o que eu quero ser.
E, obviamente, não tento agradar a um ou outro com isso. Tento agradar, isso sim, à minha sede de aprendizagem, de querer criar bem as minhas filhas para o mundo e não só de deixar o mundo melhor para elas. Para mim, é um caminho de duas vias, de criá-las bem para que melhorem o mundo e de melhorar o mundo agora para que elas sejam bem criadas pelo meu exemplo, de quem exerce uma maternidade consciente e não se contenta com "o mesmo de sempre" quando se trata de amor, carinho, alimentação e educação.
Também não vou ficar me vitimizando - ou me sentindo julgada -, porque não tive meus partos ou porque não amamentei direito a minha primeira filha, já que na época me faltou apoio e informação correta. Sim, eu também fui vítima disso, mas corri atrás do que perdi, vi onde errei, onde eu podia melhorar e comecei a fazer diferente, não só com a Clarice, mas com a Ciça, que se beneficia cada dia mais das minhas mudanças.
Já me vitimizei, é verdade, e já superei esta fase. E a superação contou com uma imprescindível aliada: a informação de qualidade. Não aquela meia verdade, não é o "diz que", não é o que o médico que me chama de mãezinha acha. Esta informação, na imensa maioria das vezes, não vem de mão-beijada, não chega numa consulta médica de rotina, numa matéria de revista ou jornal nem nas palavras dos familiares.
Ela tem de ser buscada, checada, pesquisada, conquistada. Pois ela não vem ao nosso encontro, não se vende em farmácia nem nas melhores lojas do ramo. Mas pode ser encontrada - quem diria? - na internet, blogosfera inclusa.
As recomendações da OMS, do Ministério da Saúde e da Medicina Baseada em Evidências, assim como teses sérias (e não aquelas pesquisas feitas ou encomendadas pelas grandes corporações para "provar" que o bebê não precisa mais ser amamentado exlusivamente até os seis meses, por exemplo) sobre alimentação e saúde infantil estão hoje disponíveis na internet. Agora, dispondo de todo este arsenal, me diz: por que eu vou continuar acreditando em tudo o que me dizem se eu mesma posso ter acesso a esta informação, procurando, buscando, indo atrás?
Pois é, acho que a internet deu asas às mães que questionam, que não se conformam com explicações rasas ou com a falta delas. Porque agora nós temos como contrapor uma informação que antes a gente só suspeitava que era errada ou incompleta. E, quando a gente tem esta intuição, minha amiga, vale a pena ir atrás, porque geralmente é! Quem quer busca.
São os meios alternativos de comunicação que hoje derrubam ditadores, mitos e tabus.
Engraçado que muita gente se sente atacada pelas "xiitas" do parto normal. Mas não existe, até onde eu sei, nenhuma ong, associação ou instituição fundada por mulheres, mães, voluntárias, sem nenhum interesse econômico, em defesa da cesárea. E por quê? Porque não precisa. A cesariana não um direito a ser reinvindicado, porque está disponível para a maioria da população. Já o parto normal virou artigo de luxo, que você tem que brigar pra conseguir. Quem quer parir tem que militar, simplesmente porque não tem outro jeito (a não ser que a mulher faça parte de uma parcela reduzida e privilegiada da população feminina que é parideira nata e acaba sempre passando a perna nos médicos). Daí viramos chatas. Se o parto normal estivesse disponível pra quem quisesse, se os médicos fossem mais honestos e baseassem suas práticas em evidências científicas, pode ter certeza que eu ia jogar as pernas pra cima e esperar minha dpp escrevendo só sobre enxoval no meu blog.
Mesma coisa sobre amamentação. Pediatra pra receitar NAN? Trocentos. Pediatra que apoie amamentação prolongada, amamentação durante a gestação, amamentação simultânea de dois filhos? Só conheço o meu.
E fraldas de pano? Nunca na minha vida vi uma usuária de fraldas de pano criticar quem usa fraldas descartáveis. Inclusive nós usamos as descartáveis em algumas situações, como viagens. Por outro lado, cansei de ouvir que isso era coisa de gente retrógrada, que pra que ter esse trabalho, que "eu não ia dar conta".
Enfim. Tudo tem dois lados (pelo menos). Eis o meu.