Apesar de defender ideais feministas e criar as minhas filhas para não corroborarem com a visão de mundo machista que infelizmente impera na nossa sociedade, como já afirmei aqui, eu não me sentia representada pelas feministas-raiz, aquelas que exigiam igualdade de sexos e frequentemente diminuiam o homem, como se, para exaltar a mulher, tivéssemos que insultar o masculino.No mundo em que eu cresci e adulteci, a mulher tinha que estudar bastante, ter diplomas (de preferência no plural), uma carreira brilhante e, se quisesse, ter marido e filhos, mas estes dois "acessórios" não eram (nem são, graças a deus) obrigatórios. Ou seja, toda uma ênfase na carreira e no conhecimento - e a negação dos trabalhos domésticos e da criação dos filhos, se houver. Ok, eu sempre estudei e trabalhei duro para, entre outras coisas, suprir estas expectativas externas e internas em relação à mim.
E continuo achando que marido e filhos não são obrigatórios mesmo. Além de defender todas as formas de amor, tenho certeza de que ter um marido não garante a felicidade de ninguém. E acho absurda a cobrança por filhos. Ninguém, além do casal, tem o direito de exigir/ pressionar/ cobrar se vão ou não ter filhos.
Fico impressionada com este mundo em que as pessoas se importam tão pouco com os sentimentos das outras, passam por cima sem nenhuma cerimônia, mas se acham no direito de cobrar. "E o bebê, vem quando?", "Vai ter um só?", "Mas não está passando da época?", "Ainda mama?" e outros são frases que nós, mulheres, ouvimos diariamente de pessoas próximas e das nem tão próximas (até de desconhecidos) todos os dias da nossa existência, em diversas fases da vida.
Acho injusta e extremamente desagradável esta cobrança. Não é todo mundo que quer ter filhos e este direito deve ser respeitado. Sim, nós, mães, acreditamos que conhecemos o amor pleno e incondicional ao sermos mães e muitas gostam de diminuir as que não são mães a partir deste, digamos, diferencial - ou pior, usar estes argumentos para tentar convencer alguém a procriar. Vamos parar com isso, gente! Como já disse antes, esta é uma decisão que cabe a cada mulher ou a cada casal e não temos nada com a vida do outro, a menos que sejamos questionados sobre o assunto, concordam?
Tudo isso para dizer que este feminismo (o mais conhecido, o mais difundido por estas bandas) em que a mulher tem sempre que se impôr pela inteligência, pela alta escolaridade, pelo trabalho duro reconhecido pela sociedade me deixava sempre um vazio que só agora eu vim entender. Ele não deixava espaço para a mulher que simplesmente quer ter a escolha de abrir mão de tudo isso em nome do desejo (dela e de mais ninguém) de estar perto dos filhos e nem por isso é menos inteligente, menos estudiosa e, isso todas sabemos, menos trabalhadora.
É incrível como as próprias mulheres cobram, umas das outras, produtividade, beleza, junventude, polivalência... E se eu não quiser ser multitarefa? Alguém já parou para pensar nisso? Que pode ser um desejo legítimo da mulher estar com os filhos em casa? E mais: que é um direito, uma escolha, e isso não é uma volta ao passado machista, até porque que o machismo continua mais atuante do que nunca no mundo de hoje e, no presente, a mulher já pode (ou deveria poder) ter o direito à escolha.
Ontem li um texto da terapeuta e escritora Claudia Rodrigues, autora do blog Buena Leche, que define muito bem o que é este novo feminismo no qual eu me enquadrei sem nem mesmo saber que ele existia; grifei em azul para melhor destacá-lo:
Tive a sorte de conhecer algumas dessas garotas, a maioria na faixa dos 30 anos. Nem de longe têm ligação com o estereótipo de mulheres infelizes e menos inteligentes criado durante os anos de aço do feminismo, quando a maternagem foi considerada como um assunto menor. Vindas de várias profissões, atuantes em múltiplas áreas do conhecimento, elas não deixam por menos quando o assunto é militância.
Sim, o Brasil ainda não descobriu do que se trata esse feminismo que não briga com os homens e não requer igualdade entre os sexos. Para elas a diferenciação é fundamental e se essa diferenciação algum dia serviu para submeter as mulheres condenando-as ao lar; as novas moçoilas chegam de buena leche, fazem acordos com o marido para dar um tempo no trabalho, reivindicam direitos na mesa do patrão, migram para outras áreas, fazem mestrados, doutorados ou simplesmente adaptam a vida profissional aos filhos e não o contrário.
Não se sentem menos mulheres ou menos profissionais quando o assunto é parto, amamentação e prole. Pelo contrário, querem saber mais e deixar marcas nessa guinada da história do ser humano no planeta.
Vejam o texto na íntegra aqui. E ela disse que vai retomar o assunto e falar muito mais do novo feminismo num artigo que vai sair amanhã no site Sul 21. Leiam.
Para concluir, tenho que dizer que obviamente não é uma decisão fácil sair do mercado de trabalho formal, como já expliquei aqui. Eu fui e sou muito cobrada por isso, mas acredito plenamente no fato de que os empregos estão aí e podem ser conquistados/ retomados a qualquer hora ou fase da vida. Mas a infância dos filhos, não. Ela passa. E é fugaz.
Assim como eu entendo e respeito as mães que trabalham fora de casa em período integral - eu mesma já fui uma delas -, eu gostaria de ser compreendida e respeitada sem ser diminuída por esta escolha. Que feminismo é este em que, ao invés de nos unirmos e lutarmos por flexibilização nos horários de trabalhos para as mães que o desejarem, a gente fica mais preocupada em acusar umas às outras pelas suas escolhas (ou falta de)?
Eu preferi trabalhar em casa como freelancer porque, no mercado, não encontro um trabalho de meio-período, como eu gostaria. E, com isso, optei por viver com dinheiro pingado e contado, mas eu me planejei para isso. Por outro lado, hoje, além de passar a maior parte do dia com as minhas filhas e trabalhar enquanto elas dormem, eu posso escolher trabalho, o que considero um privilégio.
Daí veio a frase da Cláudia com este texto maravilhoso, para legitimar este meu posicionamento atual (que é meu e eu não quero impôr a ninguém, que fique claro, mas também não quero ser cobrada por ele) frente à maternidade: "[As novas feministas] adaptam a vida profissional aos filhos e não o contrário".
Onde é mesmo que eu assino?
Oi Paloma
Concordo e muito com vc... cada mulher tem que ver, pensar e agir conforme seu coração manda. Eu aqui tenho a grande sorte de trabalhar somente 4 horas por dia (sou prof. de Ed. Infantil), trabalho na esquina da minha casa e por isso posso passar todo o restante do tempo com minha filhota. E procuro fazer isso com a maior qualidade que eu posso dar, porque também tenho outras coisas a fazer, cuidar da nossa alimentação, da organização da casa (não limpeza, porque isso abri mão e contratei uma ajudante...), compras, banhos, preparar aulas, etc. Mas não me arrependo nem um pouco da vida que levo. Agora que estamos pensando no segundinho, posso mudar de idéia e ficar um período afastada... mas isso ainda são planos. Admiro muito mulheres que deixaram a carreira de lado por um tempo para se dedicar a maternidade. Beijos mil