Fiquei deveras honrada de ter sido convidada a participar do coletivo Mães Internacionais, o qual acompanho com grande interesse mesmo antes de ser expatriada, já que as diferenças culturais e de vida em diversos países sempre me atraíram.E logo que mudei para a Eslovênia, fui convidada a participar do grupo, aceitei de pronto, já tivemos várias trocas legais e hoje estreio na Blogagem coletiva com o tema Clima ou Inverno (para as que estão no Hemisfério Norte, subgrupo ao qual me incluo).
Chegamos a Ljubljana há pouco mais de um mês, no meio do inverno e o que encontramos foi um clima considerado outonal. Temeraturas positivas, dias de chuva (pouca, mas tinha) e até lindos dias de sol. O dia amanhecia por volta das 7:30h da manhã e anoitecia por volta de 16:30h. Para a gente, estava bem frio, mas as temperaturas eram positivas mesmo de madrugada e estava todo mundo estranhando aquele inverno chôcho.
Chegamos a pegar 9 e 12 graus, em dias diferentes, e, com tanto casaco, deu até para sentir calor ao andar e empurrar carrinho com duas meninas pelas ruas (aqui a gente anda muito a pé, o que é ótimo).
O frio foi chegando aos poucos, nas madrugadas, com temperaturas negativas e muita geada. Acordávamos para levar a Ciça na escola a -5C, depoois -8C, um frio enorme para a gente e nada de neve.
Passadas pouco mais de duas semanas, veio a primeira neve, com floquinhos minúsculos - que eu chamo de cristais, mas que parecem estrelinhas, como no vídeo abaixo, do Trotro (nosso ídolo aqui em casa, como já contei no post de ontem) - que deixou telhados, jardins, ruas e calçadas branquíssimos. Foi lindo, não fosse este o dia da nossa mudança, se eu não estivesse com uma gripe dos infernos, com a cabeça pesada e rodando.
No dia anterior, para vocês terem uma ideia, eu tive de sair de casa, mesmo gripada e com temperaturas negativas (acho que fazia -7C) para resolver coisas da mudança. Eu não me cobri direito e chorei de frio no meio da rua, pois meu ouvido ficou exposto e doeu muito! Depois desse dia e com a ajuda virtual das amigas que moram em lugares frios, ajeitei meu casaco, gorro com proteção de orelha, "fone" de ouvido e tudo o que tenho direito para nunca mais chorar de frio.
Daí eu vi o que a inexperiência. Não importa o quanto você tenha lido, pesquisado e se informado sobre o inverno: as pessoas têm limites diferentes para o frio e você só vai descobrir o seu sentindo, passando por algusn perrengues assim. Hoje eu sei o quanto aguento de frio, não gosto de cachecol (mas uso), fecho bem o casaco, tenho de prender o cabelo antes de colocar o gorro para evitar que vire um ninho de mafagafos, sei a hora de usar cada tipo de gorro, cada tipo de luva... E olha que ainda não me considero experiente, mas foi preciso chorar de frio para aposentar a luva de couro sem forro adequado por dentro e tomar outras providências inadiáveis.
Quando tomei as providências e melhorei um pouco da gripe (antes, o nariz escorria mais que bica de cidade do interior), pude curtir a neve, o inverno. Descemos morrinho de trenó, fizemos anjinho, boneco e bolas de neve. Espalhamos pegadas e rastros pela neve branquinha, vimos os diferentes jeitos e intensidade que a neve tem de cair, contemplamos embasbacados o silêncio de uma nevasca.
Mas vimos de cara as coisas chatas e ruins que o inverno com neve traz, além da gripe que abateu toda a família. A lama em que a neve se transforma, depois de ser pisada, é um horror. Como fizemos a mudança em dia de nevasca, a casa nova ficou um lixo já no primeiro dia, pois, com tanta coisa para carregar, não era possível pedir que tirassem as botas toda vez que entrassem e saíssem.
Depois disso, começamos o ritual de tirar as botas logo na entrada, mas, mesmo assim, suja demais. E este ritual de vestir e desvestir todo mundo a cada saída é bem desgastante, numa família de quatro, com duas crianças. E olha que elas nem reclamam, mas se mexem, querem calçar uma bota inadequada, uma luva inadequada e por aí vai.
Outro perrengue que tenho passado com a neve é que às vezes o carrinho fica atolado. No caminho para a escola da Ciça, passamos por uma rua sem calçadas, meio rural (com grama, mas sem calçada de concreto, sabe?) e ali o carrinho sempre atola. É uma droga, eu me descabelo, suo em bicas, peço para a Ciça descer do skate acoplado ao carrinho, desvio dos carros que passam na rua (a rua e as calçadas de verdade são sempre limpas, senão o que haveria de acidentes...) e sigo adiante.
Quando a neve derrete, as calçadas ficam cheias de pedrinha de sal, que jogam para derreter a neve. E, quando chove, este sal se junta ao gelo que virou água e se acumula em poças, que, quando esparramadas, deixam os vidros dos carros manchados.
Ou seja, a paisagem branca é realmente lindíssima, eu acho estonteante, mas, como tudo na vida, tem seu lado B também. Descobrimos os lados A e B juntos. Tivemos a sorte de este ano o inverno ter demorado a chegar e não termos nos deparado com temperatura negativa já nos primeiros dias. Foi rapido, mas tivemos um respiro, um tempinho de adaptação.
Outra sorte foi ter chegado em janeiro (tá, mais sorte teria sido chegar em março, no início da primavera), quando os dias começam a ficar mais longos. A cada dia, ganhávamos e ganhamos mais e mais minutos de luz. Se antes anoitecia às 16:30, agora é só umas 17:45 e vai aumentando! Da mesma forma, tem amanhecido mais cedo e os dias vão ficando mais longos.
Eu acho que, não importa a temperatura, a luz do sol é importante para nos sentirmos bem. Ainda não sei como fazer para não ficar mal ao ver os dias cinzas e curtos, isso só quem mora no HN há mais tempom pode contar, mas ver os dias aumentando é muito bom, sentir o sol na pele, mesmo que não esquente nada, é ótimo. Aliás, os dias mais frios têm sido os ensolarados. Normalmente quando neva não está tão frio.
Outra coisa que fizemos - e é o tipo de coisa que se faz sem pensar muito, senão você desiste - e que foi uma das experiências mais loucas e intensas que já tive na vida foi caminhar por um lago congelado, em Bled, uma cidade lindíssima a 40 minutos de Ljubljana. Estava todo mundo caminhando ou patinando no lago e havia placas permitindo, mas mesmo assim bateu um medão de o gelo derreter e a gente cair, ainda mais quando vimos peixes nadando por debaixo da camada menos espessa de gelo.
Fora que não estávamos com patins nem nada, fomos com botas que nem de neve eram (saímos de Ljubljana sem neve e só ao chegar lá descobrimos que o lago estava congelado), então foi meio escorregadio (principalmente para mim, que estava com a pior bota). Ciça estava com uma bota de chuva e não escorregou em hora nenhuma. Cali estava com bota de neve e Bernardo de tênis. Foi uma experiência fantástica, mas não sei quando nem se repetiremos, embora a Ciça tenha amado e seja a maior entusiasta de esportes e aventuras na neve!
Ela e Clarice saem sempre muito bem agasalhadas e fora uma mão gelada (porque elas tiram a luva) aqui ou um dia em que a Ciça foi para a escola com uma calça mais fina, não reclamam de nada relativo à temperatura nunca, é impressionante. Chorar de frio no meio da rua é para os fracos.
E, com elas, assim como com os eslovenos, vamos aprendendo que neve ou temperaturas abaixo de zero (acho que a mínima que pegamos foi de -12C, nem lembro mais) não são impeditivo de nada. Todo mundo sai de casa, faz o que tem de fazer e (até) se diverte. A vida continua abaixo de zero, minha gente!
Ah, e ontem, quando contei ao meu marido que estava escrevendo sobre o clima na Eslovênia, ele disse: "Demos sorte que não pegamos um dia sequer de fog, neste inverno". O fog (neblina) é a marca do inverno de Ljubljana, cidade que fica num vale, cercada de montanhas por todos os lados. Bom, foi só ele dizer isso para hoje acordarmos com a cidade coberta de fog. Não estava tão intenso como já vi em fotos e como me contaram. Mas que boca, hein? Por sorte agora já se dispersou e o sol apareceu.
Acho que é isso o que posso dizer, até agora, sobre nosso primeiro inverno como expatriados na Eslovênia. Que a gente sofra menos e curta mais nos próximos.
Para quem nunca viu a neve caindo e quer saber como é, recomendo fortemente este vídeo do Trotro. Para quem já viu também, porque é fofo, ora!
Paloma,
Adorei o seu relato e o vídeo então... muito, mas muito fofo!
Realmente a neve é encantadora. Também adoramos! Hoje mesmo o Felipe no caminho para a escola perguntou porque não tinha mais tanta neve, preocupado que não conseguiria fazer mais bolas e bonecos de neve. Pois é...
Por isso temos que nos aquecer, se equipar com tudo que temos direito e aproveitar mesmo tudo que dá para fazer em cada estação do ano. E vocês apesar dos dias frios e da neve chegarem mais tarde, vocês já curtiram muito. Bom demais!
Agora, quanto a casa... melhor a gente nem comentar. Outono e inverno são as estações que sujam e muito, mesmo tirando os sapatos.
Beijos