Pergunte ao pediatra: 21ª rodada

segunda-feira, 5 de março de 2012
Eu bem que quis voltar aqui durante a semana para postar algum dos inúmeros post que estão pendentes, mas, como vocês viram, não consegui. Quando é assim, eu pelo menos não sumo, eu volto todas as segundas-feiras para um compromisso sério, que eu mesma criei, que me dá trabalho, sim, mas que eu adoro, o Pergunte ao Pediatra.

O Dr. José Martins é tão, mas tão legal que, mesmo quando a doida aqui, cheia de eslovenices na cabeça, esquece de mandar as perguntas num prazo aceitável, as responde no mesmo dia, sem reclamar. Ele é tão responsável e ético, que se preocupa verdadeiramente com vocês, me pergunta dos retornos, comenta as perguntas. Enfim, é um exemplo como médico, como pediatra e, principalmente, como ser humano.

Se um dia ele for fazer uma palestra na sua cidade, recomendo que vá. É impossível não se encantar com este médico que tem 45 anos de prática e continua aprendendo com seus pacientes. Se não puder ir à palestra, leia um de seus livros.

Dr. José Martins Filho é pediatra, professor emérito (e ex-reitor) da Unicamp e autor de sete livros sobre questões da infância, entre eles "A Criança Terceirizada" e o recém-lançado "Quem cuidará das crianças?".

Para ter sua pergunta respondida por ele, basta enviar para o email pergunteaoped@gmail.com ou mesmo deixá-la registrada num comentário aqui que ela entrará numa lista de espera e logo será publicada nesta seção. Para ver as perguntas e respostas anteriores, clique na seção Pergunte ao Pediatra, no menu superior deste blog.

Vamos às perguntas da semana.

***
AMAMENTAÇÃO

1) Doutor, meu filho está com quase 10 meses, se alimenta muito bem de frutas, verduras, legumes, cereais, hortaliças e carnes e ainda mama umas 5 vezes por dia. Eu trabalho em tempo integral, mas consigo almoçar em casa. Vou começar o processo para retirar a mamada noturna e a mamada antes de dormir, mas sinto que mamar ainda é algo muito importante para ele (assim que me vê ele chora para mamar, por mais que tenha acabado de comer, e não adianta tentar distraí-lo). Entretanto, no meu trabalho existem viagens ocasionais. Desde que voltei de licença maternidade (de 6 meses + férias), já tive que viajar duas vezes. Em ambas as vezes, levei meu filho, marido, berço, carrinho, bebe conforto, etc, o que é bastante desgastante. Receio que possam surgir viagens nas quais eu não possa levá-lo e isso me deixa bastante preocupada e angustiada. Será que preciso desmamá-lo? Será que consigo passar alguns poucos dias fora (eventualmente) e manter a amamentação assim que retornar? Em qual processo ele sofreria menos? Obrigada pela atenção.

JMF - Parabéns pela sua atitude de levar o bebê com você! É realmente a melhor opção e por isso você está conseguindo manter essa amamentação até 10 meses, trabalhando dessa maneira, inclusive viajando. Eu levaria o bebê enquanto fosse possível e tentaria, se possível, evitar viagens em que isso não possa acontecer, pelo menos até 1 ano e meio, no mínimo. Sei que não é fácil.

Outra solução é conseguir estocar seu leite em freezer e começar umas duas semanas antes da viagem, calculando de acordo com o tempo que você ficaria fora. E ainda a pessoa que vai cuidar do bebê deve ter experiência em dar no copo ou na garrafinha própria, para não mudar a sucção do bebê com mamadeira. A útlima coisa a fazer é desmamar, principalmente com leite artificial.

2) Olá Dr. Assisti recentemente uma entrevista da atriz Claudia Raia no programa Altas Horas onde ela dizia que seus dois filhos foram amamentados exclusivamente no peito sem tomar nem mesmo água até os onze meses, e são extremamente saudáveis, felizes e etc. Nunca ouvi dizer isso! Fiquei surpreendida e cheia de dúvidas. Isto realmente é possível? A nutrição é suficiente? Qual a sua opinião? Obrigada!

JMF - Nós incentivamos as mães a fazerem amamentação exclusiva ao peito sem água ou sem qualquer outro alimento até os 6 meses e depois começamos a introdução de papinhas, frutas e sucos. Existem alguns países e grupos que acham que dá para ir mais longe, mas eu não acho uma boa prática, porque a partir dos 6 meses a criança já começa a sentir necessidade de mastigação e de sentir alimentos na boca. Mas enquanto está exclusivo no seio não precisa de qualquer outro alimento, nem água; a mãe é que deve se alimentar bem e estar sempre bem hidratada.

PREMATURIDADE E CABEÇA ACHATADA

3) Meu filho nasceu prematuro, com baixo peso para a idade gestacional (34 semanas) e passou 20 dias na UTI. Desde que ele voltou pra casa, percebi algumas regiões da cabecinha achatadas. Conforme ele foi crescendo, a cabecinha foi ficando cada vez mais assimétrica, interferindo na posição das orelhas, testa e olhos. Só é possível perceber com um olhar bem atento, minucioso. Agora ele está com 6 meses.

Na dúvida, procurei ajuda especializada e ele foi diagnosticado com Plagiocefalia Posicional.

Iniciei o tratamento, que consiste em usar uma órtese para moldar o crescimento craniano. Acontece que ele fica muito irritado, tenta tirar a órtese, fica batendo com as mãos na cabeça, parece outro bebê, não sorri ou consegue brincar normalmente. Ele já teve algumas lesões na pele e alergias devido ao suor.

O pediatra dele alega que a cabecinha vai ficando mais redonda conforme o bebê passa a ficar mais tempo sentado. Já o especialista defende a necessidade do tratamento para que esses problemas que eu citei não se agravem ou possam interferir no campo visual ou mastigação.

Não quero ter um filho perfeito, apenas quero assegurar que ele se desenvolva normalmente e que não venha a necessitar no futuro de uma intervenção cirúrgica, ou até mesmo que vire alvo de piada dos coleguinhas na infância.

Peço uma terceira opinião pois esse tratamento é muito novo e desconhecido.

Pra mim, como mãe, está difícil conviver com algo que sei que incomoda/machuca meu filho e que não tenho uma garantia médica de que irá funcionar.

Tenho medo de perder sua fofurice e alegria durante o tratamento- justo agora que eu e o pai dele já havíamos superado a fase mais difícil relativa ao tempo de UTI e sua prematuridade. E ele só vai ser bebê uma vez.

Obrigada pela ajuda, sei que a decisão caberá a nós, que somos pais, mas eu realmente não sei o que fazer. Se insisto no tratamento, e vivo mais uma fase de sofrimento, ou desisto e aceito os "riscos".

JMF - Você esqueceu de me dar o peso e a estatura de nascimento e o peso e a estatura atual, isso é importante.

Realmente, alguns bebês tem essas alterações. Eu tenho 45 anos de prática pediátrica e na imensa maioria das vezes tenho visto esses casos regredirem espontaneamente, sem necessidade de pressões, aparelhagem e, principalmente, sofrimento.. Qual é o especialista que propôs a intervenção? Você poderia me mandar uma foto da cabeça do seu bebê para que eu possa opinar um pouco mais munido de exame? Até lá eu não faria a criança sofrer.

7 comentários:

  1. Jane Garcia disse...:

    Gostaria de cumprimentar o Dr. José Martins, pela disposição e boa vontade em esclarecer dúvidas de nós mães! É raro encontrar nos profissionais atuais tamanha atenção.
    Obrigada por dispor de seu tempo e nos enriquecendo e tranquilizando com suas opiniões tão embasadas!

  1. Liza disse...:

    Sobre a pergunta 3, Davi, meu filho, também nasceu prematuro, enfrentou 10 dias de UTI e também tinha a cabeça bem tortinha. Apesar da cesária de emergência, ele estava encaixado há horas no canal de parto e nasceu bem amassado. Notei essa cabeça tortinha logo ao nascimento e falei com meu pediatra, que disse o mesmo que o médico do post: que eu ficasse tranquila, que os ossos do crânio iriam se acomodar.

    Após alguns meses, a cabeça ficou direitinha. Até hoje, se eu reparar bem, vejo que um lado da testa é mais alto que o outro. Mas é algo realmente imperceptível. Só eu e o pai, que sabemos como era, é que notamos. E Davi não teve nenhum comprometimento relacionado ao seu desenvolvimento. Espero que esse também seja o caso do bebê da mãe da pergunta 3.

    bju

  1. Bia disse...:

    Oi, adoro seu blog e não perco uma rodada do pediatra!
    Queria falar para a mãe que perguntou sobre a "cabecinha torta" de seu bebê. Meu bebê tb nasceu prematuro de 36 semanas, não precisou de UTI, graças a Deus e tb nasceu com a cabecinha torta. Notei aos 2 meses que ele ficava muito com a cabecinha virada para um único lado e na consulta da pedi falei com ela que me tranquilizou, porém, pediu um raio x para tirarmos a dúvida. Fizemos e deu realmente uma assimetria, porém, nada anormal. Ela falou que conforme fosse crescendo e ganhando peso, isso nem seria notado. E realmente, hj ele está com 1 aninho e pelo menos desde uns 7 meses não notamos mais diferença. Quero dizer que é lógico que precisa da opinião médica, mas acredito não ser nada demais. E como o doutor falou, eu não usaria o tal aparelho e faria a criança sofrer. Passe o laudo médico e a foto pra ele ver, mas acredito que como meu filho, o dela tb não terá problema algum.
    Bjs

  1. Marie disse...:

    Nossa como sofremos como mãe. Ser mãe é mesmo padecer na terra pois o paraíso é só pra depois do Apocalípse. Me doeu a dúvida da mãe n. 3 mas o Dr. José Martins é um anjo mesmo. Obrigada Dr. Marie "Martins tbm"

  1. Eu finalmente consegui lembrar uma das minhas anotações mentais para o "Ped" preferido da blogosfera materna :)


    Dr. José Martins, gostaria da opinião do sr. para uma questão menos médica, mas (creio eu) que pode ajudar outras mães. Estou grávida de 39 semanas e já tenho um filho de 3 anos. Durante toda a gestação, ele foi um doce, nada de ciúmes. De uma semana pra cá, virou outro menino, faz mil manhas. Até uns dias atrás, estava dando um desconto pelo comportamento dele, pois todo mundo fala "ah, isso é normal", "é muita mudança pra cabeça dele", "já era esperado, podia ser pior".
    Mas ontem cansei, dei um basta, voltei com as broncas, castigos.
    Enfim, é difícil encontrar um equilíbrio numa situação dessas. Como, na opinião do sr., devemos lidar com o filho mais velho na chegada do irmãozinho?
    Obrigada!
    Mariana

  1. Leitinho e Suor disse...:

    PRECISO comentar essa última pergunta, sobre a Plagiocefalia Posicional e a Órtese!

    Que coincidência! Acabo de postar sobre isso no meu blog! Foi ontem mesmo!

    Minha filha também está usando a órtese, mas, diferente do bebê da mãe em questão, ela não está nem aí.

    A minha opinião enquanto mãe é um pouco parcial. No caso da minha filha, que está no final do tratamento com a órtese, posso dizer que valeu MUITO a pena fazer o tratamento.

    Notei a cabeça dela achatada atrás e elevada em cima e dos lados (Braquicefalia) quando ela tinha uns 4 meses. Comecei então o reposicionamento para tentar reverter o achatamento. Melhorou um pouco mas não era o suficiente. Ainda se notava.

    Fiquei indo em vários médicos, procurando uma solução e nada. Ela só aprendeu a rolar e sentar com uns 8 meses (geralmente quando a criança tem Plagiocefalia demora mesmo porque o formato tortinho da cabeça dificulta um pouco). Até lá foi bem difícil eu vê-la deitada, sem rolar, sabendo que a cabeça dela estava achatada e que não havia nada o que fazer.

    Quando ela tinha 9 meses finalmente fui atrás da órtese / capacete. Ela está usando há quase 5 meses e os resultados são visíveis. É outra coisa.

    No meu caso a Isabel nunca reclamou. Sempre dormiu bem com o capacete. Às vezes dá uma choradinha quando eu o ponho, mas logo eu a distraio e passa.

    Teve algumas vezes umas brotoejas mas passei Bepantol como o médico recomendou e deu certo. Lavo seu cabelo todos os dias com sabonete de glicerina. Seco com secador para ter certeza de que está bem seco antes de recolocar o capacete. Enxáguo com o chuveirinho para não ficar resíduo. Limpo bem a órtese com toalha limpa e álcool 70%. Deixo secar no varal enquanto ela toma banho. Às vezes termino de secar com o secador antse de recolocá-lo.

    Dou no mínimo dois banhos por dia nela, até 5 nos dias de muito calor. Não uso o sabonete sempre mas é para refrescá-la.

    Acho que a cabeça volta ao normal sim em casos em que o bebê ficou com ela achatada no útero ou no parto só. Porque logo que ele nasce a pressão cessa e a cabeça está livre para crescer normal. Mas se o bebê é maior, como neste caso em que tem 6 meses, ou se for como minha filha, que ficou com a cabeça achatada por ficar muito de barriga para cima, eu acredito veementemente que a órtese seja necessária.

    Penso que são só uns 5, 6 meses de 'sofrimento', no máximo, e uma vida toda de recompensa.

    Paloma, se você puder encaminhar este meu comentário a essa mãe, agradeço. Diga a ela que postei sobre isso ontem no meu blog Leitinho e Suor, se ela quiser conversar, estou disponível.

    Obrigada!

  1. Leitinho e Suor disse...:

    Ah, gostaria de lembrar a mãe que não se trata de um tratamento "novo". Ele é novo só no Brasil, por isso pouquíssimos médicos o conhecem por aqui. Nos EUA já é usado há mais de uma década.

    No meu blog postei um vídeo de uma família que levou a questão súper numa boa.

    Sei lá... não sei como está a cabecinha do bebê dela mas vendo os resultados na minha filha eu diria para ela continuar sim. Mesmo porque o investimento deve ter sido alto.

    Beijos.

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